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Realidade Alternativa
O novo Rock bunda-mole

Publicado em 18/6/2012 às 00:01

Texto por Carlos Cyrino

RECAPITULAÇÃO

No já longínquo ano de 2005 (como o tempo passa), escrevi para o DELFOS um artigo sobre as então chamadas “salvações do Rock”. Nele, falava dessa ânsia da imprensa musical por, a cada semana, eleger um messias que iria resgatar o Rock da beira da morte e devolvê-lo a seu posto de direito, como um dos gêneros musicais mais populares e energéticos que existem.

Defendia a tese de que o Rock não precisava ser salvo porque, a meu ver, nunca esteve a perigo. Para ilustrar essa teoria, citava e analisava algumas bandas novas (para a época) que conferiam um novo sopro de frescor, renovando constantemente o gênero. Longe de serem salvadores, eram bons grupos que faziam um bom som e não iriam revolucionar nada, apenas contribuir para dar outras boas opções a um estilo já recheado de ótimas alternativas.

Anos depois, digo com toda certeza que, se fosse hoje, jamais teria escrito aquele ensaio. O tempo de fato é cruel. Dizem que ele também deixa as pessoas mais intolerantes e sem paciência. Se é verdade eu não sei, mas no meu caso acredito que sim. Naquele texto criticava as pessoas que diziam coisas como “no meu tempo é que era bom” e “hoje em dia não tem mais nada que preste”. Hoje vejo que me tornei uma dessas pessoas. Isso é triste, mas há argumentos para essa transformação. O principal: hoje em dia não tem mais nada que preste!

DESILUSÃO

Vejamos: a esmagadora maioria das bandas novas que eu citei naquele texto já acabaram. Poucas passaram do terceiro disco. E as que sobreviveram andam bem mal das pernas. Desde então, que eu me lembre, não surgiu mais nenhuma banda que eu tenha ouvido e pensado: “puxa, isso é bem legal”. Sete anos, cara! É todo um período de azar para quem quebrou um espelho!

Confesso que não tenho mais saco nem vontade para garimpar novidades. É coisa da idade (no momento que escrevo este texto, estou a poucos meses de completar 30 anos). Por outro lado, é culpa também da cultura do MP3. É uma corrida que não dá pra vencer. Hoje em dia qualquer um grava sua música e joga na internet. Não há um crivo. É muito mais trabalhoso peneirar as porcarias até encontrar alguma pérola. Experimente escutar umas 30 tranqueiras seguidas e nenhuma coisa realmente boa e você também vai desistir de procurar.

Cansei. E eu realmente gosto de escutar coisas novas. Uma das melhores sensações que eu tenho com música é quando eu descubro algo novo, ou que não conhecia, que seja excitante. Que faça bater aquela empolgação juvenil. Que faça eu querer contar pra todo mundo a respeito dessa descoberta. Nesses sete anos, talvez eu só tenha sentido isso com o Guillemots, mas por causa de um disco específico (Red). A banda em si não é tão empolgante em seus outros trabalhos. Convenhamos, um disco é muito pouco.

A NOVA REGRA

De saco cheio de correr atrás e não achar nada, decidi desencanar dessa busca cada vez mais infrutífera e, do alto da minha rabugice, estipulei uma regra para mim mesmo. A partir de então, só escutaria bandas com mais de três discos lançados. Seria uma garantia de que elas não sumiriam do mapa na semana seguinte e de que pelo menos alguma qualidade mínima possuiriam. Pois bem, eis que o tal do Black Keys passa a ser laureado como a nova salvação do Rock (sim, ainda não desistiram de salvá-lo).

Eles têm sete discos lançados. Perfeito para minha nova regra. Trouxe toda a discografia deles da Argentina. Um Blues Rock a la White Stripes (o fato deles serem uma dupla, embora aqui sejam dois homens, não ajuda a diminuir as comparações). A diferença é que o baterista realmente sabe tocar e as músicas não têm aquela urgência que as canções dos White Stripes (descansem em paz) tinham. Ouvi os sete discos e depois ouvi de novo para me certificar. Nenhuma canção ficou na minha cabeça. Talvez se eles tivessem surgido antes de Jack e Meg White, poderiam ter pegado o lugar deles. Hoje, é apenas mais um hype exagerado. A banda é competente, mas não me causou nem um comichão no dedinho do pé. Sinceramente, acho que nunca mais vou ouvir os discos deles. Há muita coisa melhor que merece mais minha atenção, ainda que nenhuma dessas coisas seja novidade.

Recentemente quebrei minha autoimposta regra. Grande parte da imprensa musical vem falando muito bem do tal do Howler, uma banda de moleques estadunidenses que têm sido chamados de “os novos Strokes”. Geralmente isso não é um bom sinal (alguém ser chamado de “os novos X”), mas estava tão a fim de escutar algo novo que fui em frente. São os novos Strokes não porque injetam novo ânimo e energia num Rock estagnado, mas porque fazem um som idêntico. Mas os Strokes ainda estão por aí. Se eu quisesse escutá-los, iria à fonte original. Isso é a tal banda mais empolgante do momento?

Admito que minha primeira impressão com bandas geralmente é péssima. Simplesmente odiei Echo & The Bunnymen e Radiohead a primeira vez que as escutei, só para ficar em dois exemplos. E olha que hoje são duas das minhas favoritas de todos os tempos! O caso é que mesmo tendo essa péssima primeira impressão, ambas tinham um algo a mais que me fez persistir e escutar um pouco mais antes de formar minha opinião definitiva. E conseguiram rapidamente me fazer mudar de ideia. Tanto os Black Keys quanto o Howler (e qualquer outra bandinha nova do momento) não tem esse algo capaz de pedir por uma segunda chance. Não merecem uma reavaliação.

O LADO BOM DA SITUAÇÃO

Conclusão: escutei o disco do Howler, achei uma porcaria, deportei-o de volta à terra dos hermanos, e em seguida fui redescobrir o The Jesus and Mary Chain, uma banda que eu sempre gostei, mas não conhecia tão a fundo. Resultado: estou ouvindo os caras enquanto escrevo este texto. Cada vez mais buscando coisas no passado e não no presente. Não é questão de nostalgia. É falta de opção mesmo.

Pelo menos isso tem um lado bom, o do resgate (no caso do The Jesus and Mary Chain) e de correção de algumas injustiças. Cito o caso do AC/DC como exemplo. Que me desculpem os muitos fãs da banda, mas eu nunca fui muito com a cara deles. Sem nada de novo para ouvir enquanto trabalhava, por algum motivo resolvi lhes dar outra chance e dessa vez pegou. Estou curtindo bastante, e o som de Angus Young e companhia também anda em alta rotação aqui em casa.

Por essas e outras, talvez não devesse ficar tão bravo com o atual estado bunda-mole do novo Rock, e sim agradecê-lo por oferecer a oportunidade de me reapresentar ótimas bandas que talvez, de outra maneira, eu nunca fosse reavaliar. Então obrigado pela chance, mas seria pedir muito por uma bandinha nova legal de vez em quando ou isso já seria exigir demais? Enquanto a resposta não chega, The Jesus and Mary Chain vai estalando nas minhas caixas de som.

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Comentário de Onaga, em 6/8/2012, às 22:03
Sinceramente nao terminei de ler tudo. Talvez vc ja tenha falado isso. Mas acho que o problema real de nao acharmos mais coisas que nos empolguem ( tenho sua idade, poucos meses para fazer 30 ) seja o pessoal que fazem as novas musicas nao conseguirem acompanhar o nosso ritmo, o nosso gosto, a nossa evoluçao. Vai saber. Mas faz bastante sentido PRA MIM ( que fique claro que é para o meu gosto, pq o gosto dos outros eu imagino mas nao sei realmente)
Comentário de gabstarkey, em 23/6/2012, às 00:22
Eu tenho 19 anos e só escuto música velha, nada contra as atuais, até curto algumas, mas as bandas antigas tem um algo a mais, alguma coisa que me prende mais que qualquer banda atual. Parece que falta um pouco mais de alma, de coração e até de cuidado, parece que os músicos não se importam mais com solos de guitarra, uma bateria bem tocada, uma linha de baixo cativante, é tudo muito simples mas sem a força do punk. Não é ruim mas também não é bom, é neutro e o rock não pode ser neutro. Vai ver é culpa da tecnologia que automatizou demais as pessoas e tirou a alma das coisas, ou é só uma fase, enquanto isso eu continuo fuçando nos confins dos anos 80,70,60,50...
Comentário de superedi, em 21/6/2012, às 23:06
realmente uma coisa rara hoje em dia é ouvir algo novo que você acabe se interessando...
as vezes ouço minhas musicas no celular e... quase não consigo terminar de ouvir as musicas! já estou de saco cheio, enjoado de quase todas as bandas...
o negocio é como vc falou, ir atrás de bandas que antes eu não dei muita chance...
talvez consiga achar pérolas e belas musicas...
outro fato que eu acho importante, é que hoje em dia nós não paramos mais para ouvir musica.
a vida se tornou muito corrida e complicada
e não podemos mais perder tempo e sentar e ficar só ouvindo...
sempre ouvimos musica quando estamos ou trabalhando, ou dirigindo, ou vendo tv, qualquer coisa... isso deixa o processo de ouvir musica muito mais automático, se tornando apenas uma distração... o que na verdade está errado! A musica devia ter um espaço maior em nossas vidas...
Comentário de Ocultman®, em 19/6/2012, às 22:55
Pra mim, o problema é essa pressa de se vender notícia e sucessos instantâneos... Se dependesse apenas dos fãs, acredito que boa parte de nós só iria curtir seus sons preferidos sem pressa... uma hora, algum fã por aí teria um lampejo e se inspiraria a criar algo legal... Mas essa necessidade mercadológica - e até hedonista mesmo com tanta informação voando na net - acaba saturando o cenário, mas é só fogo de palha que não se sustenta. Esse papo de "o rock morreu, vamos achar quem o ressuscite!" é mais batido que o martini do James Bond.
Comentário de Tio_ze, em 19/6/2012, às 09:55
Talvez o rock esteja sofrendo com marasmo, mesmice (muito diferente de morrer), mas o heavy/thrash/death continua esbanjando criatividade e inovação. Veja a safra mathcore (título mega-escroto): Between The Buried And Me, Protest The Hero, Asking Alexandria, Deals Death, As I Lay Dying, Into Eternity, Mastodon, Skyfire e vários outros quebrando rótulos e paradigmas, criando músicas brutais e criativas.

Att

@tio_ze
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