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Título original: Watchmen
País de origem: EUA
Ano: 1986/87 (EUA) / 2005/2006 (Brasil)
Autor: Alan Moore (roteiro) e Dave Gibbons (arte)
Editora: Via Lettera
Nota:



Watchmen

Publicado em 4/9/2006 às 00:01

Texto por Carlos Cyrino

Como seria o mundo se um bando de gente resolvesse vestir fantasias e sair por aí fazendo justiça com as próprias mãos? Que efeitos a existência desses vigilantes teria em campos como política e comportamento? E mais, e se existisse realmente um ser superpoderoso, será que a presença dele seria capaz de mudar o rumo da História como a conhecemos?

Para quem sempre se fez estas perguntas, Watchmen é a série que traz todas as respostas. Tida por muitos críticos e fãs como a história definitiva de super-heróis, a obra de Alan Moore e Dave Gibbons, ao jogar o pessoal mascarado num realismo até então inédito para a época em que foi lançada (1986 a 1987 nos EUA), tornou-se um clássico instantâneo das HQs, uma verdadeira obra de referência para o gênero.

A história se passa em 1985 e começa com o assassinato de Edward Blake, a identidade civil do justiceiro conhecido como Comediante. O desequilibrado Rorschach, o único que se recusou a se aposentar quando, em 1977, foi aprovada uma lei que tornaria o vigilantismo ilegal (e, portanto o torna um fora-da-lei caçado pela polícia), decide investigar a morte de Blake e as evidências apontam para um possível matador de mascarados. No entanto, à medida que a trama avança, ele irá descobrir que a coisa é bem maior do que imaginava.

No universo imaginado por Alan Moore, os heróis surgiram na virada dos anos 40 para os 50, se aposentaram com a aprovação da tal lei de 77, e tirando Rorschach, que se recusou a pendurar a máscara e o sobretudo, apenas o Comediante e o Dr. Manhattan continuaram na ativa, como agentes do governo. Aliás, o Dr. Manhattan é a única pessoa que possui dons sobre-humanos. Vítima de um tradicional acidente de laboratório, ele ganhou o poder de... bem, fazer absolutamente tudo que lhe der na telha. Desde se teleportar até enxergar eventos futuros. Legal, né?

Com a presença desse deus entre homens, os EUA venceram a Guerra do Vietnã, o escândalo de Watergate nunca aconteceu (há uma pequena explicação sobre isso) e Richard Nixon ainda é o presidente estadunidense. Além disso, sua existência permitiu avanços tecnológicos, como o fato de todos os carros serem elétricos. No entanto, ainda há a Guerra Fria e, com o Dr. Manhattan do lado dos capitalistas, a balança de poder é desequilibrada, aumentando ainda mais a tensão do período. Os soviéticos temem um ataque dos EUA amparados pelo ser superpoderoso, e por isso aguardam apenas a primeira oportunidade de Manhattan estar desabilitado para atacarem primeiro. Nesse contexto, a tensão é palpável e crescente durante toda a série e o mundo está à beira da 3ª Guerra Mundial.

E a morte de Blake, de alguma forma, se encaixa em todo esse contexto político, fazendo parte de um engenhoso plano para... bem, é melhor eu não falar mais nada para não estragar a revelação para quem ainda não leu a HQ. E acredite, é uma surpresa que só mesmo a mente insana de Moore poderia proporcionar.

A série não envelheceu nada. Continua forte e intrigante. Os personagens são muito bem construídos e, mesmo com um elenco grande de figuras principais, além de diversos coadjuvantes, consegue desenvolver todos eles, tornando-os tridimensionais. Além disso, há um forte lado psicológico bem trabalhado e a narrativa não despenca nem por um minuto, algo que numa maxissérie em 12 capítulos seria até natural.

E para quem gosta de História, mesmo com as mudanças perpetradas pela presença do Dr. Manhattan, o período da Guerra Fria é muito bem retratado. Alguns personagens secundários manifestam suas opiniões sobre o assunto de maneiras muito similares a coisas que eu ouvi na vida real. Sim, eu me lembro bem desse período e atesto que ele foi muito bem captado por Moore.

Entre os grandes momentos da HQ, destaco a violenta história de vida do Rorschach (origens sempre são legais), a alienação do poderoso Dr. Manhattan quanto ao resto dos humanos (a certa altura, ele compara Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo, a um reles cupim) e a revelação do plano que movimenta toda a trama, quem é seu autor, e por que arquitetou tudo isso.

Além disso, a trama é toda entrecortada por flashbacks dos tempos áureos do povo fantasiado, que ajudam a elucidar questões importantes da história e ainda estabelece a dinâmica entre os personagens.

Como complemento, Moore escreveu apêndices ao final de cada edição, como se fossem artigos de jornal, livros e etc, escritos pelos próprios personagens. Esses extras servem para dar ainda mais densidade e veracidade para a história.

A arte de Dave Gibbons é outro ponto alto. Extremamente detalhista e com um cuidado extra nas expressões faciais dos personagens. A narrativa é cinematográfica e dá mesmo para visualizar tudo em movimento, como num filme. Destaque para as capas originais, que servem como o primeiro quadrinho de cada capítulo.

Watchmen foi publicada no Brasil pela primeira vez pela editora Abril, em 1989, em 6 edições. A mesma editora republicou a obra em 1999 em seu formato original de 12 números (a versão analisada nesta resenha). E, desde o ano passado, a Via Lettera está republicando a série mais uma vez, agora em quatro volumes (os quais você pode comprar aqui).

Um dos grandes trabalhos dos quadrinhos de todos os tempos, Alan Moore em seu auge criativo, e uma tremenda homenagem às HQs de super-heróis. Não é pouco. Watchmen é digna daquele clássico clichê de resenhas: uma obra obrigatória. Então, se você ainda não leu, aproveite a republicação e tire o tempo perdido. Você não vai se arrepender.

Leia mais sobre Alan Moore.


  


 
Comentário de Raffa, em 10/3/2009, às 23:50
Eu ainda não li mas já estou revertendo essa situaçao aguardando ansiosamente a chegada da minha Ediçao Definitiva...
Comentário de Carlos Cyrino, em 6/3/2009, às 00:57
Rodrigo, está no número 9. Em um dos flashbacks da Espectral rola uma festa para Edward Blake e há uma conversa que deixa subentendido que os repórteres do Washington Post, Woodward e Bernstein, foram pegos e/ou mortos antes de exporem o caso. Alguém até sugere ter sido trbalho de Blake.
Comentário de RodrigoBS, em 5/3/2009, às 20:13
Eu li os quadrinhos de Watchmen por causa da divulgação do filme(aposto que muitos foram =P), eu só posso dizer que é tudo que você disse e mais um pouco.
Mas eu queria saber qual é essa explicação do caso Watergate nunca ter acontecido. Eu li as versões paperback e Absolute Edition em inglês e não há nada explicando disso que eu me lembra, poderia me dizer, por favor? o.O
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