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Ano: 2008
Número de Faixas: 14
Duração: 71:25
Produtor: Axl Rose, Caram Costanzo
Gravadora: Geffen
Nota:



Guns N’ Roses – Chinese Democracy

Publicado em 17/12/2008 às 00:00

Texto por Mauro Barreto

Com tudo que rolou em torno do lançamento deste álbum, era de se esperar que fossem chover críticas negativas. Mesmo que todo mundo já soubesse que o som seria diferente daquele do final dos anos 80 e início dos 90, o argumento mais comum das críticas (principalmente as de veículos de comunicação brasileiros) é justamente o fato de “não soar como o Appetite for Destruction”. Ora, se fosse para ser assim, Slash & Cia. teriam continuado na banda. Outras resenhas criticam o fato de o álbum ser super-produzido, e cheguei até a ler absurdos do tipo “exageros instrumentais”. O que é um exagero instrumental? Acho que em tempos em que bandas de produção tosca como Cansei de Ser Sexy recebem elogios da crítica, fazer um álbum bem produzido é algo a ser problematizado. Pobre do Queen se lançasse Bohemian Rhapsody nos dias atuais...

Resta dizer que essas críticas não têm argumentos suficientes, e provavelmente foram escritas pelas mesmas pessoas que elogiam os álbuns de Amy Winehouse e Los Hermanos. Nada contra esses artistas, mas todo mundo sabe que música é questão de gosto, e ninguém vai pedir para o Zeca Camargo resenhar um lançamento do Cannibal Corpse, porque já sabemos que ele não vai gostar. Acho que deu para entender, mas quis dizer que a crítica musical no Brasil é triste.

Na imprensa gringa, no entanto, as resenhas têm sido mais equilibradas. Alguns falam bem, outros falam mal... mas pelo menos existe maior variedade de argumentos. O fato é que, ao ouvir este álbum, devemos nos livrar da expectativa de ouvir o som da guitarra de Slash, ou algo que vai mudar o cenário musical magicamente. Acho que, a essa altura, ninguém mais deve acreditar nesses contos da carrochinha e todo mundo já sabe muito bem que a indústria fonográfica é movida por grana. Sinceramente eu não acredito em esperar um disco que revolucione a época. Não na atualidade. Por que não esperar simplesmente por um bom álbum? Um trabalho com músicas originais, honestas e cativantes?

Basta ouvir sem preconceitos e estando aberto a receber as novidades do som deste Guns N’ Roses, e perceberemos que Chinese Democracy é um ótimo álbum de Rock, que mistura tendências modernas e elementos tradicionais da música. Ao contrário do que dizem por aí, este não é um álbum de Rock Industrial, apesar de ter elementos eletrônicos. A meu ver, tudo está bem balanceado no “conjunto da obra”, e é possível entender o motivo de faixas como Oh My God e Silkworms terem sido deixadas de lado. As 14 faixas que compõem este disco são todas muito bem trabalhadas, resultado dos muitos anos de gravação e mixagem em 14 estúdios diferentes (será que foi um para cada faixa?).

Se você temia que o som “guitar oriented” típico do Hard Rock que o Guns fazia tivesse sido deixado de lado neste álbum, pode ficar mais relaxado. Ao todo, temos o registro de seis guitarristas nas composições: Robin Finck, Buckethead, Bumblefoot, Richard Fortus, Paul Tobias e o próprio Axl Rose em duas faixas (There Was A Time e Madagascar). Os três primeiros foram selecionados a dedo com a difícil tarefa de substituir Slash na guitarra solo. E aqui as opiniões podem se dividir com relação ao resultado final, pois nenhum dos três tem aquela pegada blueseira e o feeling característico que o “peruca de palha de aço” tinha. No entanto, são guitarristas muito mais técnicos, e é possível perceber um nível de habilidade na mais elevado do que o de Slash. Mas como bem sabemos, “fritação” e técnica não são tudo o que importa. Pelo menos os solos estão lá, em estilos diversos dependendo da música. E não dá para dizer que são solos ruins, mas há uma certa ausência de frases de guitarra marcantes (algo que nem mesmo o próprio Slash vem sendo capaz de demonstrar no Velvet Revolver, com exceção de poucas músicas), e isso era típico do Guns clássico.

O vocal de Axl está impecável, lembrando que o objetivo aqui não é analisar as performances ao vivo do cantor ou do grupo, mas o resultado do álbum. E, no álbum, ele está cantando muito bem. Quem é fã do estilo que fez a fama desse vocalista não vai se decepcionar, mas também vai ouvir algumas novidades, como Axl cantando em tom bem mais baixo e até soturno em certas faixas. O uso de diversas camadas de voz cantando em timbres diferentes também é recorrente no disco, e o resultado é bem positivo. Outro elemento que merece destaque é o dedo de Chris Pitman, ajudando Axl a trazer a modernidade que tanto queria para seu som. No papel do produtor temos Caram Constanzo, que já produziu discos de grandes bandas da última década, como Pearl Jam, Stone Temple Pilots e Rage Against The Machine.

Agora, finalmente, vamos para o faixa-a-faixa:

1) Chinese Democracy: 'Cause it would take a lot more time than you / I've got more masturbation / Even with your iron fist / Our baby got to rule the nation

A faixa-título começa com uma introdução um pouco demorada, de uns 45 segundos, em que se pode ouvir vozes falando em chinês e tal, só para criar o clima de expectativa. Então entra o riff da música. É um riff meio genérico, do tipo “já ouvi isso em algum lugar”, mas é bem divertido mesmo assim. E logo se nota a nova cara do Guns, com uma espécie de metal drive digitalizado que é usado nesse início, deixando o som bem estourado e seco. Logo entra a banda toda acompanhando a levada de Rock moderno. O som dessa música não é Industrial, pois se há elementos eletrônicos nela, não são evidentes, com exceção dos solos de Robin Finck e Buckethead, que parecem ter passado por um efeito digital. De resto, o som é pra quem reclama que o Hard Rock não se reinventa. Sobre a letra, à primeira lida parece ser difícil interpretá-la, mas aí basta saber que Axl declarou tê-la escrito realmente pensando na situação da falta de liberdade na China. Não é nenhuma metáfora ou coisa do tipo. Lendo a letra sob esse ponto de vista, dá para interpretar como sendo um manifesto a favor dos chineses, com a mensagem de que um dia eles conseguem se livrar da opressão, mesmo que isso ainda demore. Bom, se Axl tivesse demorado mais um pouco pra lançar o disco, talvez essa música ficasse fora de contexto mesmo... A autoria da música é de Axl e do ex-baterista Josh Freese, que deve ter contribuído com sua experiência na área do Metal moderno, visto que já tocou com Nine Inch Nails, Rob Zombie e A Perfect Circle.

2) Shackler’s Revenge: I've got a funny feeling / There's something wrong today / I've got a funny feeling and it won't go away / I've got an itchy finger and there'll be hell to pay / I'm gonna pull the trigger and blow them all away

Logo de cara, entra um som de programação eletrônica, e em seguida ouvimos Axl com um vocal grave e profundo, estilo filme de terror, recitando os versos psicóticos acima. O interessante aqui é o uso das camadas de voz, pois logo entra o bom e velho vocal agudo de Axl fazendo dueto com sua contra-parte obscura. O refrão é Guns N’ Roses total, daqueles que dá vontade de cantar junto. Essa é a música mais Industrial do álbum, sem dúvida. Repare na guitarra base durante o solo, foi algo que me chamou a atenção com seu ritmo “bate-estaca” acentuado por um efeito de grave eletrônico. Deve ser uma das músicas que mais deve causar estranhamento aos Hard Rockers puristas, mas tente ouvir uma segunda vez e você vai passar a gostar mais dela. Uma novidade muito bem-vinda. Autoria de Axl, Buckethead, do produtor Caram Costanzo, do já ex-baterista Bryan “Brain” Mantia e Pete Scaturro (colaborador de Buckethead e compositor de temas para TV). Apesar de ter a mão do Buckethead na composição, os solos de guitarra são de Bumblefoot, que mostra aqui seu estilo diferenciado de brincar com os efeitos.

3) Better: So bittersweet, this tragedy won't ask for absolution / This melody inside of me still searches for solution

Apesar da introdução meio bizarra, com Axl cantando como uma criança saltitante a caminho da escolinha, é difícil não gostar dessa música. Foi uma das demos que vazaram dois anos atrás, e pouca coisa mudou desde então. Já era uma música boa, talvez a não-balada mais cativante do disco, a que melhor mescla o espírito Guns N’ Roses clássico com a nova proposta de modernizar o som. Aplausos para Robin Finck, co-autor da música juntamente com Axl Rose. Os solos de guitarra são de Robin e de Buckethead (eu diria que a saída deste último foi uma grande perda para a banda), mais uma vez com a aplicação de efeitos digitais. Tá certo que mais uma vez não tem nenhuma frase de guitarra marcante, como era de se esperar do Slash, mas a música toda tem uma levada contagiante, algo difícil de se ouvir atualmente. A propósito, este é o segundo single do disco, que já está rolando nas rádios do exterior, mas é claro que dificilmente vai tocar nas rádios daqui, já que estamos afundados na lama do emo.

4) Street of Dreams: I don't know just what I should do / Everywhere I go I see you / Although it’s what you planned, this much is true / What I thought was beautiful don't live inside of you, anymore

A entrada com o piano de Dizzy Reed anuncia a primeira balada. As orquestrações logo aumentam o clima. Na segunda estrofe, o vocal de Axl entra rasgando tudo, e é difícil não se emocionar se você é do tipo que ouve Estranged pra pensar na sua última desilusão amorosa. Essa aqui é mais uma para confortar a dor de cotovelo, principalmente pela letra, que eu enquadro entre as mais emotivas e tristes que Axl já escreveu. Não tem como fugir do óbvio e não dizer o que todo mundo já disse: é uma mistura das boas músicas de Elton John com... Guns N’ Roses! Se tivesse sido lançada há 15 anos, seria perfeita para um videoclipe protagonizado por Axl e Stephanie Seymour. A propósito, sabia que November Rain começou a ser composta em 1983 foi apenas lançada em 1991, no Use Your Illusion I? Dá para ver que o perfeccionismo de Axl não surgiu na saga Chinese Democracy. Essa é uma das faixas em que Slash faz mais falta, pois há um solo de guitarra enorme que parece ter sido construído pra ser épico, mas que Slash teria feito melhor, com mais emoção. O solo de Fall to Pieces do Velvet Revolver, por exemplo, é mais emocionante. A autoria de Street of Dreams é de Axl, Tommy Stinson e Dizzy Reed.

5) If The World: If the world would end today / Then all the dreams we had would all just drift away / Know there's nothing more to say

Hum… aí está uma das maiores novidades do álbum, senão a maior. Acho que ninguém esperava que um som desses viesse nesse álbum. É Hard Rock? Definitivamente não. É Rock? Digamos que tem elementos, mas não é Rock. Sabe aquelas músicas de abertura dos filmes antigos de James Bond? Pegue isso, acrescente toques de violas espanholas, batidas de percussão eletrônica estilo trip-hop, guitarras pesadas entrando com power chords e solinhos ao fundo, e o vocal de Axl tirado diretamente da era Use Your Illusion. Difícil imaginar? Só ouvindo mesmo. Mas o resultado é muito bom, e mostra que a intenção de Axl é mesmo experimentar e polir seus sons até alcançar uma certa... hum... perfeição? É perceptível a influência de Chris Pitman, co-autor da música juntamente com Axl. Só um multi-instrumentista e produtor eletrônico com o perfil dele conseguiria amarrar tanta coisa em uma música só. A diversão aqui é ouvir várias vezes e ficar reparando em cada instrumento separadamente. O solo de guitarra é mais uma ótima performance de Buckethead (eu falei que esse cara vai fazer falta...).

6) There Was A Time: Social class and registers / Cocaine in the hall / All the way from California / On the way to your next call / To those non-negotiations / To stimulate a cause / For the betterment of evils / And your ways around the laws

Nesta letra, Axl parece estar contando a história de um problema judicial que teve com alguém que outrora era muito próximo. Quem seria? Cabem mil especulações... Agora, falando da música, ela começa fazendo um estilo “cool”, com efeitos de programação e um corinho gótico. Axl começa a cantar enquanto sintetizadores de cordas soam ao fundo juntamente com guitarras fazendo uso de bends e sustains. Entra o refrão com acordes de guitarra pesada e viradas de bateria, enquanto Axl grita que “foi uma época errada”. Depois de um solo de guitarra menos enlouquecido fazendo jus ao clima da música, Pitman, Reed e Stinson entram cantando em coro, e a música termina com Axl gritando feito um desesperado, seguido de um solo mais cabalístico, marcando o clímax. Boa música, simplesmente, sem ser muito pesada e nem uma balada, e a essa altura o ouvinte já se acostumou com o novo som do Guns N’ Roses. A autoria é de Axl, Dizzy Reed e Paul Tobias, guitarrista base que também já deixou a banda (foi esse que tocou no Rock in Rio 3, e também é autor de Back Off Bitch, do Use Your Illusion I).

7) Catcher In The Rye: When all is said and done we’re not the only ones /
Who look at life this way - that’s what the old folks say / But everytime I’d see them makes me wish I had a gun / If I thought that I was crazy well I guess I’d have more fun

Uma balada totalmente no estilo do Queen. Melodia muito bonita, dá até para imaginar o Freddie Mercury cantando. E talvez por isso Axl tenha convidado Brian May para tocar guitarra na música. Isso foi em 1999! Ok, estava tudo gravado, todo mundo feliz na expectativa de ouvir o guitarrista do Queen tocando no tão aguardado álbum. Mas aí, em mais um ataque de megalomania, nosso maluquinho favorito resolve simplesmente mandar Bumblefoot e Robin Finck regravarem todas as partes do Brian May. E é essa versão que consta no álbum, sem nem ao menos citar Brian May nos créditos ou agradecimentos. Baita pisada na bola e indelicadeza com o tiozão do Queen. Mas, à parte disso, a música é ótima, bem à moda antiga mesmo, com arranjos grandiosos, com direito a orquestrações e coro de “nanana” e tudo. Diz aí se às vezes não lembra Bohemian Rhapsody? Esse tipo de música emocionante vinha fazendo falta nos últimos anos, e parece que Axl tem mesmo o dom para a coisa. O título da música é o nome original do livro O Apanhador no Campo de Centeio, clássico da literatura estadunidense escrito por J.D. Salinger (outro malucão que vive enclausurado desde os anos 50). Aliás, esse livro devia ser leitura obrigatória de todo nerd e anti-social que se preze! Que o diga Mark David Chapman, o assassino de John Lennon, que dizia que a leitura do livro o havia inspirado a cometer o atentado à vida do Beatle. E a letra da música do Guns N’ Roses parece falar justamente sobre essa relação entre Chapman e sua interpretação do livro. Uma proposta ousada, mas que passa a fazer todo o sentido do mundo, se você leu o livro e também é sensível às causas sociopatas, assim como Axl, que compôs a música em parceria com Paul Tobias.

8) Scraped: Some may convince you / No one can break through / I'm here to tell you / You're worth / More than they tell you

Axl acabou de escrever o equivalente do Guns N’ Roses a I Want Out do Helloween. Uma letra positiva, praticamente de auto-ajuda, que fala de superar o sistema e coisas do tipo. Uma boa idéia, eu diria, para um álbum com tantas letras dotadas de uma certa negatividade. A música começa com mais uma introdução bizarra, que deve ser herança dos anos de coral de igreja de Axl. Mas logo começa um Rock simples e direto, que poderia muito bem se encaixar na tracklist dos Illusions, a não ser pelo vocal de Axl que aqui está em um estilo mais próximo do que seus ex-colegas Izzy e Duff faziam quando assumiam o vocal principal. No entanto, entra aqui novamente a mixagem de vozes, com Axl fazendo dueto consigo mesmo na versão aguda rasgada. A composição é de Axl, Buckethead e Caram Costanzo. Os rápidos solos de guitarra ficaram a cargo do Bucket e de Bumblefoot.

9) Riad N’ The Bedouins: All my salvation / And all my frustration / Caught in the lies / And if you’re at home as well / Somewhere in time / Where only I can tell

Quem são Riad e os Beduínos eu não faço a menor idéia. Mas a letra parece ser mais uma dessas sobre Axl combatendo seus algozes ou sei lá. O som começa com efeitos industriais, prometendo uma música na linha de Shackler’s Revenge, mas o que vem a seguir é mais um Rock direto, na mesma linha de Scraped, com uma levada rápida e agressiva que explode em um refrão muito empolgante. Os vocais seguem a linha do falsete integralmente. O solo de guitarra principal fica por conta de Bumblefoot, e Buckethead destrincha mais um solo esquisitão cheio de efeitos enquanto Axl dá seus últimos grunhidos ao final da música. A autoria é de Axl e Tommy Stinson.

10) Sorry: I'm Sorry for you / Not Sorry for me / You chose to hurt those that love you / And won't set them free

Depois de duas pedradas de Rock (olhaí o trocadilho infame), o álbum dá uma acalmada com essa música que não exatamente é uma balada, mas uma música bem obscura, com notas sutis no violão e as guitarras com um flanger suave se preparando para entrar com peso no refrão. Enquanto esse momento não chega, Axl vai narrando com uma voz grave e vampiresca toda sua decepção com mais um relacionamento frustrado. A voz rasgada de Axl só aparece brevemente aqui, em uma ponte, enquanto no refrão a voz volta ao estilo predominante na música, acompanhada por Sebastian Bach, que faz uma participação com backing vocals. Sinceramente, podia ser qualquer um cantando aqui que não ia fazer muita diferença, mas acho que ele está na faixa só pelo fator celebridade mesmo. A música dá uma acalmada novamente, abrindo espaço para mais um solo bem executado por Buckethead, e encerra com Axl e Sebastian repetindo insistentemente que sentem muito por quem quer que seja, enquanto uma guitarra com bends grita junto com eles. A autoria é de Axl, Buckethead, Brain e Pete Scaturro.

11) I.R.S.: Gonna call the President / Gonna call myself a Private Eye / Gonna need the I.R.S. / Gonna get the F.B.I. / Gonna make this a federal case / Gonna wave it right down in your face / Read it daily with your morning news / With a sweet hangover, and the headlines true now

A música começa com um solo chorado de blues sobre um loop de bateria eletrônica. Combinação inusitada que define bem o que é o novo Guns N’ Roses. Mas logo entra a base de guitarra pesada constituindo mais uma música muito agradável de se ouvir, com os vocais de Axl em seu estilo tradicional o tempo todo, mandando uma melodia suingada. Não é um Rock rápido como Scraped ou Riad N’ The Bedouins, tampouco um Industrial agressivo como Shackler’s Revenge. É uma música de Rock moderno que lembra bons momentos de bandas da última década, aquelas que o mundo conheceu enquanto Axl estava recluso compondo esta. Robin Finck e Buckethead deixam suas marcas nos solos mais uma vez, sendo que o último é bastante frenético. Já na letra, Axl se mostra disposto a chamar todas as autoridades possíveis para resolver seu problema amoroso, inclusive o pessoal do Imposto de Renda. A autoria é de Axl, Paul Tobias e Dizzy Reed.

12) Madagascar: I won't be told anymore / That I've been brought down in this storm / And left so far out from the shore / That I can't find my way, find my way, anymore

O título da música, o começo com cornetas que remetem a algo do tipo Revolução Francesa e os discursos de Martin Luther King no meio podem fazer pensar que ela tem alguma conotação política. No entanto, ao analisar a letra, a impressão que se tem é de que Axl usou todos esses elementos referentes às batalhas sociais para falar de seus dilemas pessoais. Se for para comparar música com alguma do Guns clássico, eu arriscaria Civil War. Ela tem todo esse jeitão de semi-balada com aspecto reflexivo e sério, mas é de certa forma mais direta do que sua irmã mais velha do Use Your Illusion II. Certamente é um dos pontos-fortes do álbum. São interessantes as transições entre a bateria “de verdade” de Brain e os loops eletrônicos de Chris Pitman, que ficam se revezando no decorrer da música. Outro ponto a ser notado é a letra praticamente ser quase toda composta pelo choroso refrão. Quer dizer... há um refrão ou isso tudo é verso? Uma construção interessante que consegue soar progressiva mesmo com tanta repetição. Destaque para o trecho onde tipicamente entra o grande solo de guitarra (executado por Buckethead), mas que aqui fica misturado a uma colagem de falas tiradas de diversos filmes (incluindo o mesmo trecho de Cool Hand Luke que consta no início de Civil War) e dois discursos de Martin Luther King. O resultado foi um certo clima caótico, em um interessante trabalho de produção sonora. A autoria é de Axl e Pitman.

13) This I Love: No matter how I try / They say it's all a lie / So what's the use of my / Confessions to a crime / Of passions that won't die / In my heart

Esta é a única música do disco composta inteiramente por Axl Rose. E é uma balada bem triste guiada pelo piano que ele mesmo executa na gravação, lembrando um pouco o estilo de peças clássicas das mais melancólicas. O clima novamente é bastante soturno, ajudado pelos sintetizadores de orquestrações, também executados por Axl. É uma música bastante sentimental, na qual o loirinho alterna rapidamente entre seus vocais graves e agudos, sendo que estes últimos entram sempre acompanhados de uma guitarra base discreta, que busca não ofuscar o papel de protagonista do piano. Em determinado ponto da música, Robin Finck entra com um emotivo e longo solo que me lembrou muito Scorpions, abrindo as portas para que o resto da banda complemente a seção instrumental, para então Axl voltar cantando seus lamúrios com a voz duplicada. E tudo se encerra novamente ao piano. Certamente esta é a composição mais pessoal do álbum.

14) Prostitute: I told you when I found you / If there were doubts you should be careful if unafraid / Now they surround you / And all that amounts to is love that you fed by perversion and pain

Não se engane pelo título. Esta não é mais uma Rocket Queen ou Back Off Bitch. Do contrário, a letra desta música parece mesmo se dirigir a uma prostituta, mas é muito mais sensível e sentimental. Parece que Axl está abrindo seu coração para uma mulher da vida, questionando-a sobre como seria um envolvimento amoroso com ela, considerando a conjuntura da coisa toda. Em termos de som, a música, que foi composta por Axl e Paul Tobias, começa também com um loop de bateria eletrônica e uma guitarrinha que me lembrou algo como U2 ou até mesmo Linkin Park, uma sonoridade que a banda antiga jamais faria. À primeira ouvida, fiquei com essa sensação estranha, mas que logo é apagada assim que a melodia e os demais instrumentos aparecem. Com certeza é uma balada atípica com relação aos padrões do Guns clássico, mas se mostra muito bonita mesmo fugindo da linha de Patience e November Rain. Depois de refrões gritados, um solo explosivo e fritado de Buckethead encerra definitivamente os lamentos de Axl, para então deixar sozinha a percussão eletrônica, com os teclados e sintetizadores de cordas se combinando em um clima melancólico, que me fez imaginar um cenário sombrio e chuvoso. Aliás, uns barulhos de chuva cairiam muito bem nesse encerramento, junto ao som dos instrumentos digitais que vão se tranquilizando até que o álbum termine sutilmente.

CONCLUSÃO

Resenhas são sempre percepções pessoais e não tenho a menor intenção de querer ser o dono da verdade. Portanto, na opinião deste que vos escreve – um ouvinte de Rock dos mais variados estilos, mas acima de tudo um amante do bom Hard Rock – o Chinese Democracy é um ótimo trabalho.

Claro que existe todo um estranhamento em torno do fato de ele ter sido produzido como uma espécie de Frankestein musical, com músicos, estúdios e produtores se alternando ao longo de tantos anos, no que mais parece uma enorme empreitada do que o trabalho de uma banda, como foi o Appetite for Destruction. E é por este motivo que não dou a nota máxima ao disco, pela estranheza derivada da falta de espontaneidade na produção do mesmo (e também pela falta de frases de guitarra marcantes!).

Por outro lado, eu vejo que o perfeccionismo de Axl, beirando a paranóia, parece ter conseguido um ótimo resultado, com um álbum muito bem produzido, com uma tracklist muito bem selecionada. Por exemplo, se você perguntasse a alguém na época do lançamento dos Illusions se havia alguma faixa nos discos que pareciam descartáveis, essa pessoa iria citar alguma faixa das menos populares. Dificilmente alguém que não seja um fã fervoroso da banda gosta de todas aquelas faixas igualmente.

No entanto, com Chinese Democracy, Axl parece ter sido bem exigente com a seleção das músicas, pois não há uma sequer que eu me sinta no direito de julgar como uma música fraca. Certamente, para os que gostam de Rock e buscam por evoluções no gênero, este trabalho representa um lançamento acima da média da atualidade. Vale lembrar que não vi em nenhuma entrevista uma declaração direta de Axl dizendo que esse disco iria mudar o mundo ou a indústria musical. Isso foi uma interpretação da imprensa. Tudo o que ele disse é que queria fazer um disco diferente, e isso ele conseguiu. Eu vejo Chinese Democracy como uma atualização bem sucedida do Hard Rock, e é um disco que merece ser comprado não somente com o objetivo de “completar a coleção”, mas sim pelo prazer de ouvi-lo muitas vezes.

Encerro este texto com as palavras de Slash, em entrevista à Vanity Fair: “É bem diferente de como o Guns N’ Roses original soava, mas é uma grande declaração do Axl. Agora entendemos onde ele estava indo todo esse tempo. É um trabalho que o Guns original possivelmente nunca faria. E ao mesmo tempo ele simplesmente mostra o quão brilhante o Axl é. Então foi um alívio escutá-lo”.

E você, qual sua opinião sobre o Chinese Democracy?

Leia mais sobre Guns N’ Roses.


  


 
Comentário de Marcelo Divê, em 25/2/2010, às 14:08
Como um fã de GN'R desde a minha pré-adolescência, sinto-me responsável por deixar aqui a minha opinião.
Depois de escutar o album várias vezes percebo que esse não é o melhor album do GN'R, mas está longe de ser o pior.
A quantidade de musicas boas supera as ruins e é um album bem agradavel para novos ouvintes que curtem Rock mas não são tão fãs de Guns. Minha namorada gostou bastante do disco, apesar de nunca ter sido fã do Guns. Meu primo, grande fã da banda, não gostou nem um pouco, talvez por querer escutar o antigo Guns e não encontra-lo em sua integridade aqui.
Bem, se você escutar esse album pensando que é um Axl solo você vai acha-lo ótimo, agora, se você escuta-lo esperando o antigo Guns, você não vai encontra-lo totalmente e consequentemente julgara o album como ruim.
Se você sente-se incomodado com o nome Guns no disco, chame-o de Axl Revolver e mande vê na escuta.
Um abraço a todos.
Comentário de loko, em 17/11/2009, às 15:20
Trash!!!
Comentário de piolho, em 22/12/2008, às 22:35
Concordo com o resenhista quando ele diz que discos de rock devem ser analisados por quem entende de rock. Agora, dizer que todos os que resenharam o álbum e deram notas baixas ou críticas negativas não entendem de rock é querer generalizar. Eu particularmente adoro o que o GNR produziu no passado e achei esse álbum tremendamente broxante. Isso faz de mim uma pessoa que não gosta/entende de rock? E se eu disser que odeio Amy Winehouse e nem passo perto de Los Hermanos, onde me encaixaria?

Como já disseram várias vezes, gosto é algo subjetivo e bastante particular. EU não gostei do álbum, mas respeito a sua opinião, assim como você deveria respeitar a dos demais.
Comentário de Sandman, em 18/12/2008, às 14:56
Eu achei o álbum muito ruim. Não encontrei nada do Guns n' Roses nessa democracia chinesa. O Axl Rosa devia, ao menos, dar outro nome à banda (Axl e banda já seria ótimo já que é basicamente isso) já que se distanciou tanto do som original. Podem me chamar de idiota, dizer que não entendo de música blá, blá, blá, mas nem sempre inovação é sinal de coisa boa. O Metallica foi inovador com o St. Anger e olha no que deu...
Comentário de LuiGi/Medo, em 18/12/2008, às 00:12
Só pra constar: mídia "especializada" sucks! ^.^

E eu queria MUITO ver um "Não ouvi e não gostei!" com esse álbum. Seria fonte de boas risadas, até mais do que o próprio disco.
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