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Pensamentos Delfonautas
A crise no Senado e a crise de valores

Publicado em 26/8/2009 às 00:00


Nota: A coluna Pensamentos Delfonautas é o espaço para o público do DELFOS manifestar suas opiniões e pensamentos sobre os mais variados assuntos. Apesar de os textos passarem pela mesma edição que qualquer texto delfiano, as opiniões apresentadas aqui não precisam necessariamente representar a opinião de ninguém da equipe oficial. Qualquer delfonauta tem total liberdade para usar este espaço para desenvolver sua própria reflexão e, como não são necessariamente jornalistas, os textos podem conter informações erradas ou não confirmadas. Se você quer escrever um ou mais números para essa coluna, basta ler este manual e, se você concordar com os termos e tiver algo interessante a dizer, pode mandar ver. Inclusive, textos fazendo um contraponto a este ou a qualquer outro publicado no site são muito bem-vindos.

A crise que há mais de seis meses acomete o Senado, Câmara revisora de grande importância para equilibrar a representação dos estados e onde deveriam ser travados debates no mais alto nível sobre temas fundamentais para o progresso da nação, é, ao contrário do que se pode pensar ao ler e acompanhar o noticiário, reflexo de uma crise muito mais profunda: a crise na sociedade brasileira.

Em uma análise macroscópica – extremamente necessária para desconstruir a idéia bastante propalada de que a política tradicional e sua podridão formam um mundo descolado da realidade do homem comum – o que ocorre em Brasília nada mais é do que o espelho daquilo que presenciamos diariamente no trânsito, nas ruas, nos hospitais, nas escolas e universidades, nos serviços público e privado. A corrupção e o desvio ético e moral se disseminaram de tal maneira que, em terras tupiniquins, a honestidade passou a ser característica dos ingênuos. Vivemos em um país que naturalizou os hábitos e costumes ilícitos.

Dessa maneira, é ilusória a perspectiva de que a simples renúncia ou o afastamento do presidente do Senado, o camalêonico peemedebista José Sarney (talvez o parlamentar que melhor simbolize o que há de pior na política nacional), moralizaria, de forma instantânea, a instituição. A personalização da crise, isto é, a responsabilização e a demonização de um ou de poucos personagens, é maléfica porque atende apenas aos interesses dos que foram forçados a mudar os nomes, mas fazem de tudo para manter o arcaísmo e as práticas patrimonialistas que lhes beneficiaram.

A deliquência – esta é a melhor palavra a ser usada – no Congresso Nacional ou, se preferir, Casa dos Horrores (como argutamente definiu a publicação inglesa The Economist), é, assim como na sociedade brasileira, generalizada. Tucanos, democratas, dissidentes peemedebistas (aqui incluídos Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon, cujo mutismo em relação à complicadíssima situação da governadora Yeda Crusius é bastante eloquente) e alguns petistas, todos membros da bancada que condena Sarney e reforça o coro por sua saída, também já foram pegos cometendo pequenos ou grandes deslizes, pecados ou pecadilhos. É, por assim dizer, a bancada da indignação seletiva, como se existisse meio termo em questões éticas. Para ficar só em dois exemplos:

- Arthur Virgílio (PSDB), um dos ídolos da parcela reacionária e udenista da classe média brasileira e um dos mais aguerridos opositores do governo e da tropa de choque sarneyzista, admitiu recentemente ter recebido empréstimo de Agaciel Maia, ex-diretor geral do Senado, quando passou por dificuldades financeiras em viagem ao exterior. Além disso, o sempre vociferante Virgílio é acusado de enviar um funcionário do seu gabinete para estudar artes na Europa à custa do erário.

- Tião Viana, um dos líderes do PT no Senado, partido que antes de chegar ao poder se notabilizou pela defesa intransigente da moral e da correção política, pagou a exorbitante conta do celular da filha com dinheiro público. PT e PSDB. Tão diferentes e às vezes tão iguais.

O Conselho de Ética, por sua vez, que, como o próprio nome revela, deveria prezar pela boa conduta e punir os senadores delinquentes, é, na verdade, um reduto do corporativismo e do compadrio. Seu atual presidente, Paulo Duque (PMDB), é o segundo suplente – isto é, ele não precisou receber um voto sequer para ocupar o cargo que ocupa – do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e fiel aliado de Sarney. Na semana passada, ele fez o que dele se esperava: arquivou sumariamente, como possibilita o regimento da Casa, todas as ações – representações e denúncias – por quebra de decoro parlamentar protocoladas pela oposição contra Sarney. Responsabilidade na edição dos atos secretos? Nepotismo? Tráfico de influência? Desvio de dinheiro da Petrobras para empresas fantasmas ou de propriedade da família? Para o conspícuo senhor Paulo Duque, nenhuma dessas irregularidades infringiu os três princípios básicos norteadores da administração pública: a impessoalidade, a transparência/publicidade e a moralidade. Nada disso merece ser investigado porque denúncias não podem ser baseadas apenas em “recortes de jornal”.

Analistas e cientistas políticos propõem algumas medidas administrativas para debelar a crise e aperfeiçoar as instituições democráticas do país. Sugere-se, por exemplo, para reduzir o comportamento patrimonialista e o fisiologismo – tipo de relação política calcada no pragmatismo em que a cessão de cargos e poder pelo governo funciona como moeda de troca para cooptar partidos e obter favorecimentos – a diminuição do número de cargos comissionados e de diretorias, mudanças na legislação referente aos senadores suplentes (que não precisam prestar contas à opinião pública e, por isso, atuam sem qualquer escrúpulo, em benefício de seus pares), redução dos mandatos dos senadores de oito para quatro anos, financiamento público de campanha e a reformulação do Conselho de Ética para que parlamentares alvos de ações e investigações na Justiça – hoje, 70% dos membros do colegiado têm ficha suja – sejam impedidos de julgar seus colegas.

Tais medidas e outras, como as reformas política e eleitoral, contribuirão sobremaneira, é verdade, para coibir e desestimular falcatruas de todos os tipos e para retirar o Congresso Nacional e, em particular, o Senado, do atual estado de paralisia. Contribuirão, não há dúvida, para acabar com boa parte das regras e das práticas detestáveis que possibilitaram a prosperidade da sordidez, dos oligarcas e dos coronéis. Entretanto, deve-se dizer: essas ações, que dificilmente entrarão em vigor em curto prazo, uma vez que os encarregados de levá-las adiante são os principais beneficiários do sistema político vigente, não são a panacéia.

O problema primordial da política brasileira, por mais doloroso que isso possa soar em um país em que viceja a cultura da transferência de responsabilidade e a excessiva vitimização dos pobres, é o brasileiro que elege e reelege figuras reconhecidamente abomináveis e corruptas, no melhor estilo “rouba, mas faz”. Mais do que medidas saneadoras e moralizadoras no âmbio político-administrativo, o Brasil precisa – para usar uma expressão que está na moda – de um verdadeiro choque de civilidade, educação, decência e compostura em todos os estratos sociais. Porque a representação política, apesar de ser um bom indicador do nível de progresso e cidadania de um país, é só a manifestação mais explícita de um fenômeno muito mais abrangente e preocupante. O Brasil passa, mais do que por uma crise política, por uma crise de valores e princípios. Somos, desde a nossa fundação, um país permanentemente em crise. No trânsito, nas ruas, nos hospitais, nas escolas e universidades, nos serviços públicos e privados e, claro no Senado. A corrupção é endêmica.

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Comentário de Felipe Francesco, em 9/9/2009, às 21:29
@Tio_Ze

Concordo que a ficha criminal poderia abrir um precedente para disputa política. Além disso, se estamos em uma república democrática então o que vale é a vontade do povo. E se a vontade do povo é votar no cara, que seja eleito o sujeito. É papel da oposição mostrar que o sujeito é desqualificado.

Por outro lado, acho um exagero dizer que a democracia é uma fraude. É evidente que o poder fica, naturalmente e na maioria das vezes, na mão de quem tem o poder econômico. Entretanto é possível mudar as coisas, e elas mudam, aos poucos (não na velocidade que gostaríamos). Eu concordo com quem diz que a democracia é um exercício, e tem sido assim aqui no Brasil. Enfim, a democracia não é perfeita, nem ideal, mas é o melhor que tem. É isso!
Comentário de Tio_ze, em 27/8/2009, às 10:30
@Felipe, Guilherme

ainda tem outro motivo para esta luta acirrada: a queda de receita dos jornais e revistas. TODOS os grandes jornais estão com a venda caindo todo dia. Por exemplo, no governo FHC, a despesa com publicidade ia 70% para a Globo (jornais, rádio e tv). Atualmente está em 52% e caindo, já que o Ministro da Comunicação, Franklin Martins (ex-repórter da Globo, que saiu por causa da manipulação de notícias na eleição de 2006) está pulverizando essa grana em publicações regionais.

Taí mais um motivo das "crises". Novelização da vida real e tentativa de chantagem.

Att.

Tio_Zé
Comentário de Tio_ze, em 27/8/2009, às 10:01
@joaofnr

o problema da ficha criminal é que ela não é indício de que o cidadão é culpado, apenas que ele responde processo. É justo impedir que um cidadão se candidate apenas porque ele está respondendo um processo?

Se fosse assim, os partidos abririam processos contra a oposição apenas para impugnar a candidatura de alguém.

E como você sabe, até esgotar todos os recursos, se você tem $$$ demora muuuuuitos anos. Isso se o crime não prescrever.

@Felipe
Ainda vou mais longe: parte disso é por causa do pré-sal. As multinacionais petrolíferas que mandam nos EUA (assista Farenheit 11/9 do Miguel Mais), estão doentes pra explorar isso à vontade. Esses poços vão garantir a independência energética e até a exportação, do Brasil.
Se a Dilma ganhar a eleição do ano que vem, o projeto de garantir o controle do estado sobre a extração do petróleo (e seu lucro) vai ser aprovado.

Inclusive, alguns acordo já foram fechados com os chineses deixando desesperados essa multis, pois estão vendo que não vão poder controlar, mandar e desmandar. Vão ter que competir honestamente (e elas não sabem fazer isso).

ADORO teoria conspiratória. :-)

A democracia no século XXI é uma fraude. Existem apenas grupos financeiros fomentando políticos que são seus fantoches. Ou você acha que ter um presidente de Banco Central que era presidente do Bank Of Boston é uma coisa inteligente? Você acha que ele vai operar pra quem? Pro povo brasileiro, ou pros ex-patrões que pagavam (pagam?) MILHÕES pra ele todo mês, pra pode especular a vontade? A abusiva taxa de juros básica e a negligência do BACEN e da CVM deixa essas respostas muito claras.

Att.

Tio_Zé
Comentário de Felipe Francesco, em 26/8/2009, às 22:19
Guilherme,

Eu, assim como Tio_Ze, fiquei surpreso com o ótimo artigo, mto bom mesmo, parabéns! E tbm concordo, tirando digamos um certo exagero na retórica, com o Tio_Ze ao dizer que muito disso é em função das eleições do ano que vem e de uma ação de grande parte da imprensa.

Porém, o q vc diz no texto eu tbm sinto bastante. Ñ é tolo dizer que o Legislativo é o espelho da sociedade brasileira, e se lá os desvios de conduta são prática comum, na sociedade tbm. O problema é que mudar isso ñ é nem um pouco trivial, e neste caso, os nossos representantes deveriam, ao menos tentar, dar o exemplo.

E, para isso, as reformas são essenciais. Ñ sei se vc sabe mas o PT tem um abaixo-assinado para a convocação de uma constituinte, para que seja feita a Reforma Política. Infelizmente o tema não é mto popular e, além disso, vindo de quem vem, ninguém bota mta fé. Até pq, é arriscado que queiram colocar coisa de terceiro mandato e essas coisas, mas existem outras propostas nessa linha.

Por fim, acho que se pessoas com vontade de que as reformas sejam feitas e que não estejam presas no discurso comum de que político é tdo uma merda e ponto final, se juntarem, talvez seja possível pressionar uma reforma política decente. Eu tô dentro, prefiro mil vezes ir pra Brasília pra pedir isso do q ficar comendo pizza pra reclamar do Sarney. É isso!
Comentário de joaofnr, em 26/8/2009, às 19:09
Também digo, com uma certa vergonha, que não entendo muito de política, portanto não pude interpretar o texto como ele merece, mas nos pontos que diz respeito à falta de ética e um certo descompromisso do eleitor são as partes mais perturbadoras, que me deixam sem esperança e frustrado por ser um eleitor que sempre tenta escolher o mais ideal, não o menos pior.

Reforma na política é necessário, claro. Uma reforma profunda, que afastem de vez os oportunistas e corruptos. Mas isso é quase uma utopia. Não que eu seja a favor de conflitos, mas é mais fácil dar um golpe de estado do que fazer reforma política com essa baderna.

Na igreja que eu faço parte (sou católico) temos um abaixo assinado com a proposta de que se faça um projeto de lei impedindo pessoas com ficha criminal de se candidatarem para qualquer cargo público (não só nas câmaras, como também concursos públicos).

Funciona? Talvez. Tem assinaturas suficientes para que seja apresentado? NÃO!! Esse é o problema. O brasileiro fala mal, acha ruim, mas não faz nada.
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