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Pensamentos Delfonautas
As mazelas da Justiça

Publicado em 28/2/2011 às 00:00


Nota: A coluna Pensamentos Delfonautas é o espaço para o público do DELFOS manifestar suas opiniões e pensamentos sobre os mais variados assuntos. Apesar de os textos passarem pela mesma edição que qualquer texto delfiano, as opiniões apresentadas aqui não precisam necessariamente representar a opinião de ninguém da equipe oficial. Qualquer delfonauta tem total liberdade para usar este espaço para desenvolver sua própria reflexão e, como não são necessariamente jornalistas, os textos podem conter informações erradas ou não confirmadas. Se você quer escrever um ou mais números para essa coluna, basta ler este manual e, se você concordar com os termos e tiver algo interessante a dizer, pode mandar ver. Inclusive, textos fazendo um contraponto a este ou a qualquer outro publicado no site são muito bem-vindos.

É impressionante como o povo brasileiro gosta de falar dos “seus direitos” sem nem ao menos pensar no que está pedindo! Sério, quem trabalha em qualquer área jurídica vê as coisas mais improváveis acontecendo devido à falta de informação. E isso acontece nos dois opostos: pessoas almejando direitos que não possuem e pessoas “desperdiçando” direitos que possuem.

Mas, meu objetivo com esse texto não será fazer uma explicação sobre os nossos direitos individuais. Não, a idéia aqui é falar sobre um direito coletivo, colocado como fundamento do Estado Democrático de Direito, no Preâmbulo da Constituição Federal. Para quem não conhece nem a Constituição e muito menos ouviu falar nesse “tal de Preâmbulo”, coloco-o abaixo:

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos...” e blá blá blá.

Bonito não é? Palavras deveras bem escolhidas. Até parece discurso de político. Mas já estamos de saco cheio de ladainhas sobre justiça, mostrando como o povo brasileiro é injustiçado, como somos oprimidos e tudo o mais, etc e tal. Porém, como o DELFOS quer que você saia do senso comum, o objetivo do texto também não é esse. É apenas fazer pensar. E, por onde começar? Pelas perguntas mais primitivas, oras: Justiça? O que é Justiça? Ou melhor, o que é justo? O que é injusto?

Como eu falei no começo, pedir sem refletir é uma marca comum da nossa “brava gente brasileira”. Mas, como clamar por Justiça sem analisar o que isso envolve? Não pense que é possível uma resposta categórica e definitiva a alguma das perguntas levantadas. Isso são discussões que atravessam as eras em todas as sociedades ditas civilizadas (eita, frase clichê). O que foi justo no Brasil de 1630 pode não ser no Brasil de 2011. Ou, ainda, o que é justo em aldeias aborígenes da Austrália não é necessariamente justo numa metrópole como São Paulo.

Então, pensar a justiça é algo realmente complexo. Tem uma série de fatores arraigados à questão. Não é simplesmente determinar: isso é bom, isso é mau; isso é justo e isso é injusto.

Matar é justo? Usar a violência é justo? Com certeza imediatamente a palavra que vem à cabeça é NÃO! E, de fato, não é. Em hipótese alguma? E quando isso afeta diretamente aquilo que é mais valioso para você? Não estou falando patrimonialmente, mas emocionalmente.

O que seria justo para um homem que violenta uma criança, a agride em todos os sentidos e ainda a expõe a humilhação pública? E o teu julgamento seria igual caso a criança fosse uma desconhecida e caso fosse tua filha ou filho? Por mais racional que tentemos ser, por mais positivistas que possamos ser, entra em ação a máxima do “dois pesos, duas medidas”.

Não adianta, isso é próprio do ser humano. E que atire a primeira pedra quem for capaz de afirmar que não causaria dano a alguém, mesmo exposto às mais adversas condições.

Agora, para vermos como é complicado estabelecer o que é justo, e, ainda mais complicado sancionar a injustiça, pensemos outro exemplo. Roubar algumas batatas para não morrer de fome é crime? Sim. E ser preso por ter cometido um crime, é justo? Sem dúvida. Mas então, por que diabos jogar fora o que sobra não é crime também? Foi isso que aconteceu, por exemplo, na minha cidade (Guarapuava), onde toneladas de batatas (em bom estado, diga-se de passagem) foram jogadas no aterro sanitário da cidade. Isso não é crime, mas também não é nem um pouco justo, concorda?

Assim sendo, concluímos que atitudes criminalizadas nem sempre são injustiças e vice-versa. O porquê disso é assunto para outra divagação. Basta dizer que é o mesmo princípio de responsabilidade que “força” restaurantes a jogarem fora todos os restos de comida (mesmo que sejam alimentos crus), que poderiam alimentar muita gente. Que belo contra-senso, não?!

Com a evolução dos direitos individuais, nossa sociedade está cada vez mais preocupada em obter “justiça”. Para qualquer lado que você olhe, verá advogados “sedentos por fazer justiça” (sem interesses por trás, obviamente!). É uma palavra que simplesmente não sai da boca das pessoas.

Para a filosofia do direito, Justiça é, toscamente falando, a virtude central da vida do ser humano. É a forma pela qual é possível se encontrar harmonia e equilíbrio social. Não quero dizer aqui que isso está errado. Mas, essa busca por um ideal desconhecido vem, ultimamente, gerando inúmeras iniqüidades.

As pessoas têm constantemente extrapolado o limite do bom senso e procurado meios de benefício próprio em nome da bendita justiça. Isso é pensar que, se eu estou bem, a situação é justa. E isso acontece em todo lugar. No emprego, na escola ou faculdade. Vemos isso até mesmo na religião, onde o que motiva as pessoas, em grande parte das vezes, não é a fé (que todos têm até mesmo os ateus), mas sim os resultados oferecidos. Se o que eu receber em troca estiver bom para mim, então o negócio é justo!

O que me motivou a escrever essa pequena reflexão foi a leitura do mega-tremendão livro O Poderoso Chefão. O personagem principal da trama (impossível não pensar no Marlon Brando), Don Vito Corleone, tem um senso de justiça simplesmente primoroso. O senso de igualdade, eqüidade, devolver o que é devido. Nada mais, nada menos. Simplesmente o que é certo.

A justiça do Don era, em muito, superior à justiça da sua época (a corrupção era marca registrada da justiça estatal). Sua palavra realmente tinha valor. Lógico que não podemos exaltar aqui um personagem que construiu sua vida com o sangue de muita gente. Mas, apesar de implacável com seus interesses, seus valores se refletiam em todas as decisões que tomava. Todos os favores que fazia, e que lhe renderam o título de Don, eram embasados na justiça.

Se formos capazes de ter um senso de eqüidade assim, sem dúvida seremos justos no nosso dia-a-dia. Não estou falando aqui em mudar o mundo. Vamos pôr os pés no chão e deixar de utopia. Mas, não é porque o mundo é injusto que também precisamos ser. Por que não cobrar apenas o que é devido? Por que não cumprir a nossa parte em um acordo na medida exata do que foi combinado?

Mude sua casa antes de tentar mudar o mundo!

Leia mais sobre Pensamentos Delfonautas, Brasil.


  


 
Comentário de luizhalen, em 2/3/2011, às 21:12
@Raffa

Eu, pessoalmente, não achei q faltasse alguma coisa =P Parabéns pelo texto.

E isso oq vc falou da diferença entre o livro e os filmes, é verdade. No livro o Vito é mais justo. Até mesmo pq o enfoque do livro eh no Vito, e não no Michael (q no primeiro filme eh dividido meio a meio...), como nos filmes.

Agora quanto essa coisa de ateu ter fé, tenho q concordar q sim. Mas não quanto a não existência de Deus, em relação a esso, temos convicção (sim, sou ateu).

Tenho convicção de q não existe um ser observando todos nós e nos julgando, salvando ou tirando nossas vidas de acordo com sua vontade - justa - e "checando" se cumprimos nossas "missões na Terra" ou não. Sei q misturei algumas crenças e nem todas as religiões tem essa imagem de Deus, mas de um ponto de vista genérico e tentando "abarcar" a todas as religiões, eu fico com essa discrição.

Ateus tem fé (ao menos eu) de q o próprio ser humano é capaz de fazer tudo aquilo de que ele precise. Cure doenças, conquiste seus objetivos, ame, viva em sociedade, perdoe, cuide, e por ai vai. Ele busca se completar com o próprio ser humano e buscar força através de seus próprios valores e convicções. A fé do ateu é de q ele é capaz de fazer o q precisa fazer, e se não o é, é momentâneo, é porque não encontrou um modo de fazer isso ainda.
Comentário de Dawkins, em 1/3/2011, às 16:39
@Carlos Corrales

Assim velho, eu não fique chateado não foi com o que foi dito, como você mesmo viu eu sei que errei em não ler as regras, erro primário meu.

"Pô, galerinha, custava nada ter deixado o comentário e ter me dado um toque que não podia postar link, ficou bem sem sentido o que eu disse. =p"

Como você pede ver na frase acima, e pelo smile, eu estava só comentando o fato nem tinha pensando nada, só fique um pouco chateado quando vi a sua resposta, porque para mim, soou meio antipática. Mas vamos deixa isso de lado, eu acesso o Delfos a séculos, mas só agora eu comecei a comentar mesmo, sério, acho que no mínimo a uns 3~4 anos eu estou por aqui.

@Raffa

Sim cara, o nick foi meio que um modo de honrar o grande mestre. Daí coloquei um N a mais para ficar bem claro que estou abaixo dele. =)

Babações de lado, claro que a ciência não pode provar a inexistência do barbudo! Maaaaas, o que podemos é averiguar as ações que são associadas a ele, isso sim nós podemos, e por enquanto nenhuma delas se mostraram obra do papito (será que eu acertei o plural?!).

Quanto a dizer que um cientista tem fé na ciência, acho isso meio errôneo e veja porque: pegue o exemplo da teoria da evolução.
Darwin a mostrou ao meio cientifico, depois ela foi testada, testada e mais uma vez testada, é aceita no meio acadêmico como a melhor explicação para a origem das especies na terra. Mas se por algum motivo começarem a descobrir erros e ela não bater mais com a realidade é game over para ela. Será descartada e vai se iniciar mais um vez a procura por respostas.

Agora inverta o processo e coloque algum dogma de qualquer religião. Por exemplo: a existência do Jesus bíblico, ou até mesmo o do histórico, ninguém do meio religioso quer saber de nada não, estão pouco se importando se ele existiu ou não, se tem provas cabíveis, o que importa é que tem na Bíblia e ponto final.

Acho que com esse exemplo dá para se ter noção de quem tem fé e quem tem crença. No meio cientifico não existe verdade absoluta, já no meio religioso.

Quanto ao caso do Grande Mestre, você não esta vendo as motivação dele, arrisco a dizer que nunca viu quais os argumentos dele para tal ato... já leu algum livro dele? Já procurou saber o Humanismo que ele prega?!

Em certo momentos eu o acho um pouco raivoso demais, até mesmo intolerante, mas em face das atrocidades que estão acontecendo hoje em dia em nome de uma criatura mitológica as atitudes deles são o de menos.

Aff, isso tá ficando gigante, é melhor para de escrever.

Abração por trás para todo mundo, e poxa, me deem boas vindas!!!
Comentário de Carlos Corrales, em 1/3/2011, às 14:14
Dawnkins, a resposta não foi agressiva nem antipática. Se você leu as regras, já devia saber porque os links foram editados, não tinha motivo para pedir uma explicação pessoal. Pareceu o cara que entra pela porta escrito "não entre" e depois reclama quando o segurança aparece, dizendo que não sabia. E a explicação que você pediu veio.

As regras estão lá para não termos que ficar explicando para todo mundo que quiser comentar, e tem um motivo para elas existirem.

De qualquer forma, você teve não uma, mas DUAS explicações pessoais, dirigidas diretamente a você. Duvido que você consiga algo próximo disso em qualquer outro site, o que mostra como o DELFOS valoriza o nosso público. E qualquer um que acesse o site e comente há bastante tempo pode reiterar esse fato. Espero ter esclarecido e colocado um ponto final nesse assunto.
Comentário de joaofnr, em 1/3/2011, às 14:06
Ainda sobre O Poderoso chefão, que foi muito bem apontado como um exemplo de justiça que se faz à parte da legislação, temos que considerar o que torna diferente uma família construida com o Vito e outra com seu filho, Michael

Por consideração a quem aida não assistiu (ou leu) essa obra prima, um aviso de spoiler:

ATENÇÃO - SPOILERS LEVES ABAIXO DESSA LINHA!

Michael assumiu o posto e se tornou Don sucedendo seu pai Vito depois de ter livrado a famílai Corleone da falência. Para isso, ele teve que ir contra alguns princípios morais de Vito, e no fim do segundo filme, percebemos que ele só conseguiu chegar onde chegou sendo ousado, violento e impiedoso.

Claro que não podemos comparar nossas vidas à de um mafioso italiano dos anos 40/50, o interessante é observar que Michael foi sim muito mais cruel que seu pai, tendo pouco ou nada do senso de justiça de Vito. Mas se não fosse por isso, sua família sera engolida pelos outros chefões.

FIM DO SPOILER

O que faz a justiça valer? Seria ela válida se trouxesse sofrimento a um e alegria a muitos?

Cabe aqui mais uma pergunta: o que seria justiça nos casos extremos em que governos e exércitos pedem a morte de milhares para salvar a de milhões?
Comentário de Dawkins, em 1/3/2011, às 11:11
@Delfos

Poxa, não precisava de um coice desses não... não é nem o que se diz, é o modo como se fala.

"Não faça propagandas de outros sites ou de qualquer outra coisa sem autorização."

Só coloqueis os links como modo de explicar melhor o meu ponto, só isso.
Vocês não acham que faltou um pouco de tato em me responde? Visto que eu estava sendo bem educado e sou novato por aqui.
Porque, pelo menos para mim, a resposta soou bem agressiva e antipática.
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